segunda-feira, 29 de maio de 2023


 Carapintada

Renato Tapajós

Cópias: 1
Já pensei um jovem dos anos noventa sendo transportado aos anos sessenta. É analisando essa questão que Renato Carvalho Tapajós escreveu o livro "Carapintada". Tudo começou quando Rodrigo voltou para casa após mais uma manifestação pelo impeachment do presidente Collor de Melo. Como num passe de mágica, Rodrigo percebe que embora ainda esteja na mesma rua, tudo é diferente. Não entendo nada do que está seguido, deixa-se guiar pela curiosidade. Acompanhe um grupo de jovens que parece conhecê-lo, e viu-se no meio de estudantes secundaristas, jovens como ele, falando de passeata, tiras. Assombrado, descobre que voltou no tempo vinte e três anos. Observa que os jovens, embora vistam diferente, o discurso é o mesmo, estudante é tudo igual. Embora encontre uma situação absurda e que tudo não tenha passado de um pesadelo, Rodrigo sente-se totalmente entrosado com aqueles jovens: passeata, esconderijo, armas, UNE, UBES, camar5ada, missão secreta, são palavras que faziam parte da rotina daqueles jovens. Envolvido pelo sentimento coletivo que animava aqueles jovens, Rodrigo participa de várias missões perigosas, troca tiros com a polícia, certo de que não seria atingido pois não faz parte daquele mundo. Conhecendo a realidade da ditadura e os sonhos daqueles jovens por um mundo melhor, sonhos pelos quais estavam dispostos a lutar. E Rodrigo sabia o resultado, mas não podia contar. Sabia como o sonho iria acabar e agora compreendia um pouco o sarcasmo do seu pai; ele foi um jovem naquele tempo. Outro sentimento que pertuba Rodrigo é Claúdia; uma companheira de luta. Compreende está apaixonado quando estava com Claudia numa passeata. Viu-se gritando como os outros jovens palavras de ordem: "Abaixo a ditadura"! Sabia que aqueles jovens gritavam por liberdade; os carapintada do seu tempo não lutavam pela liberdade porque ela não mais existia. Lutavam contra a corrupção que envergonhava o país. Pintavam a cara como uma alusão a vergonha ou como um grito de guerra. Só o sentimento era o mesmo. Quando a passeata se transformou numa guerra, Claudia e Rodrigo fogem, passam algum tempo escondidos, onde deram vazão aos sentimentos que os envolvem: trocam o primeiro beijo. Quando tudo está mais calmo, despede-se de Claudia, sai voando pela Avenida Paulista e de repente, sente uma leve tontura, e percebe que voltou ao seu tempo. Preocupado por ter suportado o que imaginava ser uma alucinação, meteu as mãos nos bolsos e encontrou duas balas: o sonho tinha sido real...

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